Nas entrelinhas da música Diário de um Detento
- Carolina Marcondes
- 24 de nov. de 2019
- 3 min de leitura

Depois de visitar o complexo penitenciário de Viana/ES e de ler o livro “Diário de um Detento”, a música que leva o mesmo nome da referida obra passou a ter significados mais palpáveis e impactantes para mim. Apesar de ter sido lançada pela Banda Racionais Mc´s em 1997, o conteúdo das rimas poéticas dessa canção continua, infelizmente, a retratar uma assustadora realidade.
Para interpretar de forma mais aprofundada a música “Diário de um Detento”, faz-se essencial ter em vista o contexto histórico no qual essa foi composta e as questões envolvendo a sua autoria.
Quanto ao contexto histórico tratado na letra da música, esse remete ao massacre do Carandiru, que ocorreu no dia 2 de Outubro de 1992. O evento ocorreu na Casa de Detenção de São Paulo, que abrigava mais de 7 mil detentos, enquanto a sua capacidade oficial era de 3.250 pessoas. O seu estopim foi uma briga entre facções de presidiários que levou a um confronto generalizado e a uma intervenção da Polícia Militar.
Esse acontecimento resultou em um massacre que envergonharia o Brasil: 111 presos mortos e 110 feridos. Muitos corpos foram encontrados com as mãos sobre as cabeças, em sinal de rendição, ou algemados.
Quase 25 anos depois, o caso ainda é alvo de controvérsia: de um lado, o chefe da operação diz que agiu no estrito cumprimento do dever; do outro, grupos de direitos humanos acreditam que houve intenção de exterminar os presos e reclamam que ninguém foi punido.
Em alguns trechos da canção, as emoções do eu lírico ao vivenciar essa tragédia são transmitidas, como nos seguintes: “Amanheceu com Sol, dois de outubro. (...) Avise o IML, chegou o grande dia.”
Além disso, há na canção uma crítica expressa à indiferença frente à crise no sistema prisional do então governador de São Paulo, Luiz Antônio Fleury Filho. Os trechos mais marcantes sobre essa postura são os seguintes: “Fleury foi almoçar, que se foda a minha mãe! (...) Fleury e sua gangue vão nadar numa piscina de sangue. Mas quem vai acreditar no meu depoimento?”
No tocante à autoria, quem compôs a música foi o ex-presidiário Jocenir Prado, sobrevivente da tragédia. Ao ler o livro escrito por ele, denominado “Diário de um Detento”, pude compreender melhor a intensidade das experiências vivenciadas nos presídios pelos quais o eu lírico passou, dentre esses o Carandiru.
Conforme narrou na obra, foi preso injustamente e, durante o tempo nos presídios, escrevia para os detentos analfabetos cartas para os seus familiares, poemas e textos em geral. Sendo assim, o trecho da canção segundo o qual por trás de cada sentença há uma história de “abandono, miséria, ódio, sofrimento, desprezo, desilusão”, entre outros, é fruto de muitos desabafos ouvidos pelo compositor da música. Por essa razão, Jocenir ficou conhecido entre os demais presos, até que foi apresentado a Mano Brown, integrante da Banda Racionais Mc’s. Nesse momento, Jocenir deu ao cantor de rap parte da letra da canção “Diário de um Detento” em um papel, jamais imaginando o sucesso que essa faria na época.
O sucesso da música não se limita à época em que foi escrita, porque a realidade transmitida em sua letra, infelizmente, continua atual: a vida dos estereotipados como “criminosos” continua sendo tratada pelos “cidadãos de bem” e pelo sistema político como se não tivesse valor algum. Sobre isso, toca-me o trecho que expressa o seguinte: “um metrô vai passar com gente de bem, apressada, católica, lendo jornal, satisfeita, hipócrita (...). Olhando pra cá, curiosos, é lógico... Não, não é não, não é o zoológico.”
Sobre esses aspecto, é intrigante para mim o quanto julgamos os erros dos outros, conhecidos por nós de forma extremamente superficial, como muito maiores do que os nossos. Imagine o maior erro por você já cometido. Se as pessoas, por um longo período de tempo, utilizassem essa infeliz atitude para te definir e, assim, tratassem você de acordo com esse estereótipo, como você se sentiria?
Com isso não quero dizer que as pessoas não devem ser punidas sobre os seus erros, mas sim que elas não devem ser definidas por eles. Cada ser carrega um oceano de especificidades: de defeitos e de qualidades únicas. De forma prática, as pessoas que se encontram nos presídios devem ter apenas a sua liberdade de ir e vir cerceada, mas nunca lhes devem ser negados direitos básicos, como o direito à saúde, por exemplo.
No entanto, esses direitos estão sendo negados a milhares de detentos, todos os dias, e quantos de nós nos importamos com isso?
Portanto, a música implica intrigantes questionamentos, tais como: será que nós, enquanto sociedade, realmente cremos que todos os humanos são dignos? Se sim, por que repudiamos tanto a ideia de tortura, mas pouco (ou nada) fazemos para ao menos amenizar o caráter torturante do sistema prisional?