Polarização política: entre gritos e sussurros
- Carolina Marcondes
- 22 de abr. de 2018
- 2 min de leitura

Ouvem-se choros desesperados nas filas de hospitais lotados. Ouvem-se gritos dos injustiçados pelas desigualdades de condições de vida. Ouvem-se vozes indignadas dos atingidos pela assassina silenciosa chamada corrupção. Creio que dificilmente algum brasileiro consegue tapar os ouvidos a todas essas situações. Mesmo assim, inúmeros cidadãos conseguem simplesmente ignorá-las.
Dentre aqueles que gritam e/ou que ouvem com sensibilidade a esses gritos intrigantes, há algo precioso em comum: o anseio por um país melhor. O fato é que as pessoas acreditam em caminhos diferentes para alcançá-lo. Em tese, isso deveria ser algo bom, já que a diferença tem o belo poder de gerar complementariedade.
Apesar disso, na prática, a realidade é outra: tais diferenças de pensamento tem gerado um cenário extremamente hostil, marcado por incompreensões e generalizações desqualificantes. Enquanto a dualidade coxinha versus mortadela prospera, o diálogo político inteligente paralisa no Brasil contemporâneo.
Precisamos compreender algo importante: podem existir preciosas partes da “verdade” na mão daqueles que discordamos. Acredito que construir as nossas convicções pessoais, por meio de leituras e reflexões próprias, é essencial para não termos ideias superficiais, nem sermos enganados por doutrinas falaciosas. Por outro lado, precisamos ter cuidado para não absolutizarmos essas convicções já que, se fizermos isso, jamais as aperfeiçoaremos.
Por isso, precisamos ter humildade para ouvir o outro antes de expor as nossas ideias e focar no que nos une: o anseio por um país melhor. Quanto ao caminho para alcançá-lo, podemos dialogar sobre ele e nos complementar. Debates não são competições e pessoas não são ideologias. A surdez quanto aos gritos das injustiças que nos rondam é triste; mas a surdez quanto à riqueza que pode existir nas palavras do outro também.
Além disso, comumente enxergamos atores políticos, por exemplo, como absolutamente maus ou como absolutamente bons. Então, apenas lutamos contra ou a favor de alguém e, com isso, permanecemos passivos, como meros torcedores e cegos à realidade que não é preta e branca, mas sim colorida.
O fato é que o sistema político brasileiro é apenas uma lupa de quem somos. Não, não somos todos corruptos e isso também jamais amenizaria a gravidade da corrupção política. Entretanto, somos todos corruptíveis, ou seja, passíveis de, caso pressionados ou seduzidos, escolhermos trair exigências éticas, mesmo que isso prejudique a um terceiro, em prol de algum benefício próprio. Isso porque ninguém está imune ao egoísmo que, geralmente de forma sutil, sempre sussurra em nosso ouvido e tenta influenciar as nossas ações.
Como consequência, enquanto todos lutarem apenas contra algo ou alguém, nada mudará. Mas quando cada um começar a lutar contra o próprio egoísmo e contra as próprias atitudes negligentes, tudo mudará.
Precisamos, então, parar de apenas torcer! Precisamos calçar a chuteira e entrar em campo: o que nós podemos fazer (ou deixar de fazer) para tornar o Brasil melhor? Temos sido acomodados ou negligentes às mazelas de nossa sociedade?
Por fim, ninguém vence uma partida de futebol sozinho. Um time precisa de jogadores com diferentes habilidades, capazes de se complementar. Nessa lógica, para que um Brasil melhor seja construído, é essencial que todos nós, juntos, trabalhemos diariamente para isso. Só uniremos forças verdadeiramente transformadoras quando persistirmos em ouvir, dialogar e agir.